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12/11/2008

Respondendo a perguntas sobre "juventude e política"

O estudante Rodrigo Jonathan Rodrigues, da redação do jornal Babélia, produzido no curso de jornalismo da Unisinos, entrevistou-me para escrever uma reportagem sobre Juventude e Política. A reportagem, portanto, não irá para o periódico em formato de ping-pong e nem com todas as respostas, pois será uma matéria sintética em que consta o interesse dos jovens com a política, relacionando as minhas respostas com a pesquisa Datafolha sobre o perfil da juventude brasileira. A matéria ainda não está on line, quando estiver, previsto para o final de novembro, linkarei aqui no blog.

Abaixo, a entrevista:

BABÉLIA- É possível mudar a política com jovens determinados a lutar por seus direitos?

Leopoldo Vieira - Sim e as novas gerações cumprem na história um papel determinante nas mudanças. Foram jovens que fizeram a revolução francesa e a cubana. Eram jovens os promotores da maior revolução cultural que se tem notícia, o maio de 68. Foram jovens os que atiraram as primeiras pedras na vidraça da ditadura militar por democracia e até deram suas vidas por essa causa. A juventude traz consigo novos ideais e, seja na luta que trava no presente ou como geração que assume o poder com o envelhecimento das anteriores, faz o mundo girar, aposentando antigas práticas e sensos comuns. Por isso, a política de hoje, apesar de prenhe e desvios éticos, vícios patrimonialistas, nuances assistencialistas etc, é superior em qualidade a que existia há décadas atrás. É claro que tratamos aqui de uma "guarda avançada", da parcela engajada, organizada e mais consciente (a juventude "para si"). A juventude social em geral tem grandes pontos de contato com a mentalidade dos seus pais e do conjunto da sociedade como, por exemplo, sobre legalização das drogas, a discriminalização do aborto, a favor da redução da maioridade penal entre outros temas. Quase sempre sob um paradigma conservador. Além disso, está imersa numa condição material ainda muito difícil: desempregada, com inúmeros entraves para ingressar no mundo de trabalho formal, empregada precariamente, vitimada pela gravidez precoce, DSTs, recrutada pelo crime organizado ou comum, vítima da violência cometida por esses mesmos jovens ganhos pela criminalidade como alternativa de sobrevivência. Contudo, há uma série de movimentos, entidades e organizações juvenis que trabalham uma nova linguagem e pautas atrativas novíssimas, que pretendem dar respostas a esses dilemas e trazem consigo esperança e novas culturas políticas que podem ser um atenuador na transmissão da cultura política socializada pela política tradicional e forjada por essa realidade material adversa. Aliás, foram esses atores, juntamente com intelectuais, com jovens militantes dos partidos, principalmente os de esquerda, egressos do movimento estudantil, que promoveram o reencontro dessa vanguarda com a juventude real e criou a noção e o movimento por políticas públicas de juventude que ganha cada vez mais destaque na agenda do país, estados e municípios, pois advoga, além de ações, projetos e programas específicos para os jovens, também o protagonismo juvenil na elaboração e gestão dos mesmos. Esse processo trouxe à tona a visbilidade das políticas de juventude, antes ignoradas sumariamente ou renegadas sob a idéia de que os dilemas dos jovens se resolveriam por meio de políticas generalizantes, como a tese do "crescimento econômico" ou "crescimento econômico com distribuição de renda". Não, a juventude abarca múltiplas opressões de gênero, etnia, necessidade física especial, econômica, cultural etc, somadas ao "ser jovem".O jovem quando se organiza e luta por direitos também cria laços de representação com os "homens públicos" e, na medida que esses correspondem ou frustram suas expectativas, o voto mais consciente da juventude vai separando joio do trigo e se torna importante na imposição da entrada, saída e manutenção de certos personagens da política.

BABÉLIA - Na sua opinião, porque os jovens se afastam da política?

Leopoldo Vieira - Os jovens não são tão afastados da política quanto se pensa. Embora a maioria da juventude não deposite credibilidade nos políticos profissionais, ela reconhece que a política influi decisivamente na sua vida e manifesta enorme vontade de participar das decisões. Os jovens acompanham o noticiário político, muitos se identificam com partidos e boa parte se organiza em ONGs ou Igrejas que guardam relação com a política, principalmente as primeiras. Há, porém, dois fatores predominantes para os que se distanciam. Um é o desemprego de inserção, a dificuldade de conseguir o 1o emprego. A precaridade dos trabalhos conquistados também se soma aí. Por isso, ou se está correndo atrás de'um "trampo"ou se está tomado por jornadas exorbitantes, incompatíveis até mesmo com o estudo. Isso é o apontamento de pesquisas recentes sobre o assunto. Outra questão é a frustração entre o voto e os resultados imaginados deste. O jovem brasileiro tem sonhos prosaicos: se formar, conseguir um bom emprego, montar uma casa e se juntar com a pessoa amada. O jovem não é naturalmente rebelde ou revolucionário. Isso vai depender das disputas que a esquerda, a direita, o mercado, a religião travam por ele. Isso é determinado, em suma, pelo seu ser social. Ocorre que desde a abertura, o regime democrático não conseguiu satisfazer o sonho dessa juventude. Essa é a origem da frustração com os políticos e é, também, a matriz de que a política influencia na sua vida e da vontade de participar. Todos ficam iguais porque ninguém resolve a questão, vista por eles superficialmente, da oportunidade. São jovens na faixa de necessidade. A questão dos escândalos, da corrupção, vêm como tempero. "Não resolvem nada e ainda por cima roubam". Creio que essa é a mentalidade mais corriqueira. É uma coisa interessante, pois a juventude que está na faixa dos 15 a 18, 20 anos é a mais otimista do mundo segundo a FGV. Então, alguma coisa começa a mudar a partir do governo Lula que está investindo extraordinariamente nas políticas públicas de juventude. Isso tem animado os jovens com a possibilidade de realizarem esse sonho prosaico e reconciliado eles, em parte, com a política, pois têm respostas reais em termos de iniciativa do Estado na ponta da sociedade e têm espaço de participação política, como a Conferênca de Juventude recém realizada. Concomitantemente a isso, o PT voltou a ser o partido preferido dos jovens.

BABÉLIA - Como fazer para que os novos militantes, lá na frente, quando quiserem optar pela vida política, não venham a se corromper?

Leopoldo Vieira - Não existe fórmula para isso. O jovem militante terá sempre que se policiar e refletir sobre a fidelidade entre o que pensa e o que faz. Conciliar o estudo das filosofias políticas preferidas com o profundo conhecimento da realidade dos jovens, não só de números, mas convivendo lá no locus, na favela, periferia, cárcere, banda, "pelada", boteco, grupo teatral. Não é fazer tudo isso, é buscar conhecer jovens que estão nesses lugares, conhecer esses lugares. A depender da origem social, não esquecer de onde veio e se tem origem abastada, não perder a sensibilidade e a capacidade de se indignar. Vai depender da formação pessoal, da escolha dos ídolos, das referências políticas que cria. Em especial, eu acho que a ideologia tem muito a ver com isso. Embora a corrupção seja realidade na esquerda, na direita e no centro, sou convicto de que a causa de lutar pelos explorados, espoliados, desponderados, querer igualdade, justiça social é um ponto de partida melhor do que achar as desigualdades naturais, desejar fama e poder ou simplesmente variar de um ao outro extremo de acordo com a moda e as conveniências.

BABÉLIA - Como fazer para atrair jovens a militância, com tanto escândalo político que ocorre, que deixam cada vez mais os brasileiros sem querer se meter em política, e decidem seus candidatos através de bótons, adesivos e bandeiras? Qual o papel dos jovens na política?

Leopoldo Vieira- Abrir canais de diálogo e participação para a juventude se integrar às decisões, pelo menos daquelas políticas que dizem respeito a ela, vindas do poder público. Isso pode ser feito através de conferências, congressos, "orçamentos particpativos" da juventude, frentes parlamentares de juventude, criação de conselhos específicos etc. Depois, desenvolvendo políticas públicas e demarcando direitos que vão no encontro dos sonhos dos jovens, alterando para muito melhor o que chamamos de "condição juvenil". Isso cria confiança porque o espaço foi aberto e a vida mudou. O partido que tomou essa iniciativa, certamente, terá adesão de quem foi atingido por ela. Outra coisa é dar uma causa para a juventude lutar. Hoje o papel da juventude não é mais "assaltar os céus", ser o elo geracional entre "os sovietes e a energia elétrica", como dizia Lenin. A geração atual é a geração nascida e criada na democracia, seu papel é governar, é ser a ponte entre as bandeiras das antigas gerações, marcadmente a democracia racial, a equidade de gênero, o ecumenismo/laicisimo, o ambientalismo, a liberdade estética, o pluralismo ideológico, a justiça social, o pacifismo, brotadas nos anos 60 (época dos nossos pais e avós) com o regime democrático atual que permite completá-las. É ser o elo entre as bandeiras dos movimentos, entidades e organizações juvenis , com seus múltiplos temas e bases sociais e a conversão delas em políticas públicas de juventude no âmbito governamental e estatal. É, em resumo, promover a revolução democrática, que consiste em solucionar politicamente a condição juvenil hodierna através do protagonismo juvenil por dentro da democracia, inclusive, contribuindo para expandí-la e exacerbá-la. O partido de esquerda (bato nessa tecla porque esse é meu lugar na topografia política e ideológica) não tem mais que centrar sua intervenção sobre os jovens com slogan para cooptar carregador de faixa e renovar a direção daqui há dez anos. Tem que permitir aos seus jovens integrantes organizarem uma plataforma voltada ao Estado e às instituições democráticas e dizer em linguagem acessível que essa proposta visa realizar o sonho dos jovens em geral. repito: casar, se formar, estudar, ter um lar. E para realizá-los ou se faz política ou serão eternamente quimeras, nada mais. Agora não concordo que se esteja cada vez mais votando por bótons, adesivos e bandeiras. Pelo contrário, acho que essa prática tem diminuido na medida em que o povo vai se emancipando da manipulação da grande mídia, dos tais "formadores de opinião" (na verdade achologistas preconceituosos de classe média). E isso tem acontecido porque o povo tem construído identidades políticas mais fortes porque coadunadas com uma mudança palpável das suas condições materiais. A popularidade do Lula é um exemplo do que quero dizer.

BABÉLIA - Na sua vida, na sua formação, qual foi a importância de ter, desde cedo, se engajado na política, de ser militante desde jovem?

Leopoldo Vieira - Eu antecipei a minha capacidade de indignação com as desigualdades e injustiças e, por tabela, minha vontade de me engajar contra elas. Formei com mais solidez e delicadeza, sofisticação, valores de dignidade revolucionária, radicalidade ética, hombridade, honestidade, firmeza ideológica e vontade inquebrável de mudar o mundo. "Pulei" a etapa de "analfabeto político", no sentindo que dá o Bretch a esse conceito. Essa precocidade me deu oportunidade de testar muito cedo a compatibilidade entre meu pensamento e minha prática, o que me fez ser um militante com muito orgulho de mim mesmo, por poder ter a honra de conseguir me encarar no espelho e não me envergonhar ou ter graves arrependimentos. Me fez ser abnegado no estudo da política, na busca pelo conhecimento da juventude real. E, claro, me considerar um militante experiente, embora aos 25 anos de idade, o que não me gera arrogância, mas sim uma satisfação em poder trabalhar com uma boa desenvoltura pelas causas que acredito.